REGRAS DE COMPETIÇÃO DE SHUAIJIAO NO BRASIL: CONTINUANDO COMENTÁRIOS

logo shuaijiao pbRecapitulando o que escrevi no texto anterior sobre regras de competição, abordei as questões de divisões de peso, tempo de luta e intervalos, e por fim a área de competição. Várias perguntas surgiram sobre essas questões, visto que as entidades brasileiras que pretendem desenvolver a modalidade no Brasil utilizam regras distintas das que são preconizadas pelas instituições oficiais internacionais, principalmente a chinesa, que possuem muito mais experiência que as tupiniquins.

Dando continuidade aos comentários sobre regras, vou me concentrar nesse texto nos sinais da arbitragem. Para isso, usarei como exemplo a regra oficial de uma das entidades brasileiras que pretendem organizar a modalidade em nosso território. Vou me reservar o direito de não citar nomes, por questões éticas, mas não é difícil identificar tais práticas no Brasil. Aliás, é muito fácil, pois não são muitas entidades, nem muitos dirigentes.

Em tempo, cabe destacar que vou me deter em pontos conflitantes com o regulamento oficial chinês. Começando a analisar os sinais desse referido regulamento, a exposição deles começa com o sinal de Shangtai (上台). É traduzido como “subir na plataforma”. Em uma tradução mais literal, Shangtai é traduzido como etapa, palco, fase ou estágio. Já começamos mal, pois já sabemos que no Shuaijiao esportivo, pelas regras oficiais que destaquei no post anterior, não há plataforma. A luta esportiva do Shuaijiao é realizada em área baixa, como o tatame do judô ou o tapete da luta greco-romana. Uso esses exemplos só para ilustrar e facilitar o entendimento dos leitores. Assim, por essência o primeiro comando não faz sentido, não no que se refere ao sinal, mas o termo utilizado e sua tradução. Parece um aproveitamento das regras de Sanda (散打).

O comando de parar é realizado pela verbalização da palavra Ting (停) ao mesmo tempo em que se realiza um movimento constituído de avançar o corpo em base arqueiro (弓步) estender o braço a frente, com a mão aberta e espalmada pra o lado apontando os dedos unidos na direção entre ambos lutadores. Completando o movimento une-se as pernas ficando ereto. No regulamento analisado o comando de voz é o mesmo, mas o movimento é o mesmo descrito no regulamento de Sanda.

Quando ao final de uma técnica não há pontuação o regulamento analisado não diz quantas vezes as mãos se cruzam à frente do corpo. No regulamento oficial são duas vezes que as mãos se cruzam à frente do corpo.

Quando um ataque é iniciado fora da área de competição o regulamento analisado indica que o árbitro faz o sinal em base arqueiro, assim como no Sanda. No regulamento oficial esse sinal é feito ereto, pés unidos, próximo ao local onde ocorreu o fato e perpendicular a linha divisória entre a área de competição e a área de segurança.

Em relação aos sinais de falta, o regulamento analisado faz diferença entre os tipos de falta. Para as faltas técnicas há um sinal flexionando o braço ao lado do corpo em 90° com a mão para cima e palma aberta. Para falta violenta, flexiona-se o braço ao lado do corpo em 90° com a mão para cima e fechada. Idêntico ao regulamento do Sanda. No regulamento oficial, só há o sinal com o punho fechado, o que sinaliza uma falta técnica ou violenta é os termos utilizados.

O sinal de passividade no regulamento analisado o braço balança na lateral do corpo em 45°. No regulamento oficial o braço é flexionado a 90°.

Para sinalizar a vitória do combate de um dos lutadores o regulamento analisado faz o gesto de elevar o braço do vencedor segurando-o pelo antebraço e verbalizando o termo adequado. No regulamento oficial não há a elevação do braço do vencedor. O árbitro apenas eleva o próprio braço estendido em um ângulo de 45° na direção do vencedor e verbaliza os termos adequados. Em relação aos termos há similaridade entre os dois regulamentos, mas no que se refere ao gesto há diferenças significativa. O do regulamento analisado é similar ao do regulamento do Sanda.

Percebe-se então que há diferenças importantes entre os dois regulamentos no que tange aos sinais. O regulamento analisado demonstra grande aproximação com os sinais utilizados no Sanda, o que sugere uma adaptação do mesmo para as regras do Shuaijiao, ou ainda, que o regulamento traduzido e utilizado não é de uma entidade oficial chinesa. De qualquer modo, o que fica exposto é importantes diferenças entre os dois regulamentos na questão dos sinais, reforçando o que venho sinalizando sobre as entidades que pretendem divulgar o Shuaijiao no Brasil.

Para uma verificação mais adequada dos sinais de arbitragem oficiais indico o vídeo produzido pelo grupo do Mestre Li Baoru e Ma Jianguo, ambos árbitros oficiais e internacionais de Shuaijiao certificados pela Associação Chinesa de Shuaijiao. Vejam o vídeo clicando AQUI.

Alguns podem achar que é preciosismo da minha parte, mas entendo que quando queremos desenvolver um trabalho sério, todo esforço na busca da qualidade é pouco frente aos desafios que se apresentam. Então, sejamos sérios em nossas proposições.

No próximo post falarei sobre a atribuição de pontos durante a luta.

Boa reflexão e que possamos juntos avançar no desenvolvimento do Shuaijiao no Brasil.

MAIS UMA VIAGEM À BEIJING: CONTINUANDO O APRIMORAMENTO DO SHUAIJIAO

Quando fui a primeira vez à China em 1992, para o campeonato mundial em Taiwan, não tinha ideia que voltaria mais vezes por um motivo específico. Durante o trabalho frente ao Departamento Técnico de Shuaijiao da Confederação Brasileira de Kungfu Wushu, senti a necessidade de maior aprofundamento dos conhecimentos sobre o Shuaijiao. Em conversa com o Mestre Nereu Graballos, fui orientado a procurar uma escola nos Estados Unidos da América (EUA) em primeiro lugar. Era mais perto do Brasil, a passagem era mais barata e a cultura mais próxima a nossa. Fiz uma busca extensa, mas estava procurando uma escola diferente da que eu tinha aprendido originalmente. Ampliar o horizonte era a meta. Mas dos EUA não obtive resposta na época. Apesar da dificuldade não desisti.

CAMP LI BAORU (3)

A internet foi uma ótima ferramenta de busca para mim, me ajudou a encontrar um Camp de Shuaijiao em Beijing que aconteceria do dia 12 ao 27 de outubro de 2008. Para minha sorte era um Camp conduzido pelo Mestre Li Baoru. O nome do evento era LI BAORU SHUAIJIAO MASTERS CAMP. Entrei em contato com um dos organizadores, um neozelandês chamado Michael Wix, que me deu todas as informações e fez a minha inscrição no evento.

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Como era o ano dos Jogos Olímpicos de Beijing, a autorização para a realização do Camp não foi liberada pelo governo chinês, então recebi um email sobre o cancelamento do evento. Todo evento realizado em território chinês precisa da autorização do governo para acontecer.

Fiquei decepcionado, mas enviei um email para o Michael perguntando se poderia ir mesmo sem o evento. Ele me respondeu prontamente dizendo que eu poderia ir, mas não haveria certificação. Respondi à ele que não estava buscando certificação, mas conhecimento. Queria aprender mais. Assim, fui à China novamente, só que agora era para aprender Shuaijiao  em uma das escolas mais famosas daquele país.

Fui recepcionado pelo Mestre Kao Chian Tou, que a pedido do Mestre Nereu Graballos me auxiliou em tudo no meu primeiro contado com os Mestres Li Baoru e Ma Jianguo. Fiquei hospedado na casa do Mestre Kao, ao qual sou eternamente grato por essa possibilidade e facilidade de ficar na China com pouco gasto. Permaneci lá por 40 dias treinando na academia do Mestre Ma, sob sua supervisão e também do Mestre Li.

Muito aprendi nesse primeiro contato com o Shuaijiao de Beijing, fiz boas amizades. Lá estavam alunos da Nova Zelândia, Alemanha e Suíça. O conhecimento que trouxe para o Brasil logo fiz questão de compartilhar com os amigos, alunos e professores que trabalham junto comigo. Foi um grande avanço no conhecimento sobre o Shuaijiao e sua cultura, além de novas amizades.

Em 2012 organizei uma nova viagem à Beijing, para continuar o meu aprendizado com o Mestre Ma Jianguo.  Apesar da supervisão do Mestre Li, era ele quem se responsabilizava pelo meu aprendizado. Assim, fiquei treinando em Beijing por mais 21 dias, mas agora na companhia de Enrique Ortega, que viajou comigo por sugestão do Mestre Nereu Graballos.

Li Baoru Ma Jianguo Antunes 2

Novamente o aprendizado foi surpreendente. O nível dos mestres é muito alto, e realmente me faziam avançar a cada encontro, a melhorar cada vez mais. Mesmo com 79 anos de idade na época, Mestre Li demonstrava uma vitalidade impressionante, fruto de uma vida dedicada ao Shuaijiao.  Eu me sentia uma criança perto dele. O que mais se destacava nos treinamentos era a descontração e a alegria com a qual conduziam as aulas. Essa descontração contagiava e permitia uma intimidade que só favoreceu o desenvolvimento da aprendizagem. Uma lição para toda a vida. Aquele estereótipo do mestre inatingível, que só dá ordens desconexas e sem sentido não fazia parte daquele ambiente. A amizade e a alegria estavam sempre presente. Como não aprender em um ambiente como esse?

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É por essa gama de boas experiências que a terceira viagem à China só está gerando boas expectativas. Novamente estou voltando para treinar e aprender Shuaijiao na fonte, na origem. Mas agora um pouco mais maduro, com um pouco mais de conhecimento, mas sempre pronto para novas aprendizagens e novas experiências. Embarco hoje, dia 20 de setembro de 2014, na companhia de Plínio Tsai, Enrique Ortega e do professor da Unicamp José Júlio Gavião de Almeida. É uma viagem para realizar convênios de intercâmbio entre a Unicamp e três outras universidades chinesas, parte do meu projeto de Pós-doutorado. Mas, o treino de Shuaijiao já está agendado e o Mestre Ma nos aguarda com novos ensinamentos. A expectativa é grande, vamos ver o que nos aguarda. Rumo à China, à Beijing e ao Shuaijiao. Vamos informando vocês no decorrer da viagem. Aguardem.

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Iniciando o trabalho

logo shuaijiao pb-002Todo início, seja do que for, é trabalhoso. Começar algo do zero é muito difícil. Sair da inércia é difícil. Mas, temos que começar um dia, ou outros o farão.

Assim, a partir de uma sugestão da Gabriela, minha esposa, comecei o Blog. A ideia da Gabriela foi excelente, não tinha pensado nisso antes. E fiquei pensando… como não tinha pensado nisso antes? É óbvio! O óbvio é enxergado por poucos. Daí as grandes ideias.

Deixando os elogios indispensáveis para trás, fica o trabalho que me é esperado. Publicar informações de relevância é o meu objetivo. Informações que contribuam para a divulgação e difusão do Shuaijiao no Brasil é a minha tarefa. Portanto, comecei agora, hoje, domingo, dia 31 de agosto, para continuar um trabalho iniciado no ano de 2004, quando assumi o cargo de diretor técnico de Shuaijiao da Confederação Brasileira de Kungfu Wushu (CBKW), a convite do saudoso Mestre Nereu Graballos.

O trabalho na CBKW durou até 2011, e contemplou inúmeras conquistas, porém ele continuou fora da esfera institucionalizada e ganhou o Brasil de outras formas, porém, com aspirações de crescimento que também incluem a dimensão esportiva.

E aqui estou, em mais uma forma de fazê-lo, com a certeza de que será um esforço verdadeiro e significante, mas também, gratificante. Espero que todos gostem, mas também, se não gostarem serei todo ouvidos.

Espero sua crítica, sugestão, ideia, ou apenas sua leitura. Mas, espero contribuir com o avanço da prática e das reflexões críticas sobre essa arte marcial tão antiga na China, mas tão jovem no Brasil.