SHUAIJIAO TRADICIONAL VERSUS SHUAIJIAO ESPORTIVO: UM FACTÓIDE CRIADO NO BRASIL

Marcelo Moreira Antunes

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Capa do livro Bainien Jingjiao. Autobiografia do Mestre Li publicada em 2015.

Para começar a discutir o Shuaijiao no Brasil é necessário recuperar a memória de sua introdução e seu desenvolvimento por aqui. Iniciando-se durante a primeira metade da década de 1990, pelas mãos dos professores Roberto Batista e Li Wingkay, ambos pela linhagem do Mestre Chang Dongsheng, de Taiwan, via Estados Unidos da América (EUA). O Professor Roberto, também conhecido como Betão, aprendeu Baoding Shuaijiao com o mestre John Wang no Texas e o Professor Li Wingkay aprendeu Baoding Shuaijiao com o mestre Daniel Weng, também nos EUA. Ambos os mestres aprenderam com o Mestre Chang Dong Sheng em Taiwan, a partir do modelo de ensino e conteúdos que foram organizados para atender as demandas da academia de policia daquele país, após a queda da primeira república da China em 1949. Mestre Chang Dong Sheng era partidário do Kuomintang, e com a queda do regime de Chian Kai Shek, teve que fugir para Taiwan junto com alguns compatriotas. Continuar lendo

DOCUMENTÁRIO SOBRE O SHUAIJIAO EM BEIJING: A SAGA DE UMA FAMÍLIA

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Em 2013 foi lançado um documentário feito pela Beijing Film Academy, escrito e dirigido por Cen Lan (岑岚) que tem como tema o Shuaijiao de Beijing. Trata-se da trajetória da família do Mestre Li Zhenxian (李振仙), uma linhagem direta do Shanpuying (善扑营) da dinastia Qin. São mais de 300 anos de história no shuaijiao. Vale a pena assistir e ampliar o conhecimento sobre o Shuaijiao de Beijing. A vantagem é que tem legendas em inglês para aqueles que não compreendem a língua chinesa. Clique AQUI e boa diversão.

REDUTO TRADICIONAL DO SHUAIJIAO DE BEIJING: UMA EXPERIÊNCIA ANTROPOLÓGICA

Quando chegamos à Beijing nessa última viagem à China, não imaginávamos que iriamos vivenciar uma experiência extremamente próxima da cultura chinesa. Mais precisamente da cultura do Shuaijiao de Beijing.

Tudo começou coma a visita ao Mestre Ma Jianguo que fizemos assim que chegamos a Beijing. Após uma longa e divertida conversa, rumamos para um restaurante tradicional de comida Islâmica, onde diversos lutadores e mestres de Shuaijiao se encontram com frequência.DSC06828

Da academia até o restaurante foram apenas 10 minutos de carro. Pensar em tempo de deslocamento em Beijing na perspectiva de 10 minutos ser um luxo, pois a cidade é enorme. É uma Megalópole. Assim, rapidamente chegamos ao restaurante.

DSC06829Em uma primeira olhada, vimos dois chineses praticando chicote no estacionamento do restaurante. Era um lugar escuro, com pouco movimento, onde se poderia treinar com certo conforto e privacidade. Apenas os fregueses do restaurante passavam em frente ao local de treinamento. Há de se destacar que encontrar dois chineses treinando chicote no escuro não é uma visão muito comum. Não é fácil de ver no cotidiano da maioria dos praticantes de artes marciais. E por isso pensamos que estávamos em um local diferenciado. E o som chicote era impressionante, marcava um ritmo que nos acompanhou até o interior do restaurante.DSC06810

Ao entrarmos no restaurante nos deparamos com um ambiente bucólico, pouca luz, e muitas referências espalhadas pelo local. Fotos, troféus, roupas de treino, equipamentos, o ar era denso. Parecia um local que estava ali há muito tempo. E que era frequentado por personagens de filmes antigos de Hong Kong. Nós nos entreolhamos com surpresa e estranheza, eu, Plínio, Ortega e o Professor Gavião. Para esse, o ambiente era ainda mais estranho, pois ele é praticante de taekwondo e estava mais familiarizado com a cultura coreana.DSC06809

De qualquer forma foi estranho, mas aprendemos muito. Aprendemos sobre os hábitos, costumes e cultura do Shuaijiao de Beijing. O espírito do Shuaijiao de Beijing estava ali, impregnado naquele lugar e nas pessoas que ali estavam.DSC06814

O engraçado é que nem comecei a falar sobre os pratos, sobre a culinária do local. Quando iniciamos a viagem até Beijing, soubemos que o Mestre Ma estava em viagem de trabalho em um campeonato nacional de Shuaijiao em Shangxi, uma província distante de Beijing umas sete horas de trem, aproximadamente. Nesse campeonato havia cerca de 400 atletas do país todo. Os campeões das categorias eram premiados com medalhas, um valor em dinheiro e… um bode! Isso mesmo, um bode.DSC06822

Dizer que um campeão ganha uma medalha é normal, que ganha um valor em dinheiro é diferente, mas tudo bem. O esporte está indo bem. Mas dizer que ele ganha um bode… é exótico no mínimo. Mas essa cultura de premiar o campeão com o bode vem da tradição mongol. E a China quer que essas tradições sejam mantidas. E assim, o campeonato nacional de Shuaijiao premia seus campeões com medalhas, dinheiro e… bode.DSC06815

E por que eu estou escrevendo sobre o bode? É uma pergunta pertinente. Porque quando os pratos vieram nesse jantar, a impressão que tive era que estávamos comendo o banquete de um campeão de Shuaijiao, se é que vocês me entendem. Mas comer carne de bode não é problema, não concordam? No nordeste brasileiro isso é normal, estamos acostumados. Então por que se preocupar? É porque só tinham vísceras… de bode. Ou seja, comemos uma iguaria de campeões que não incluía a carne propriamente dita. Coisa do Shuaijiao de Beijing, ou cultura mongol.DSC06816

Bom, enquanto comíamos vísceras de bode e conversávamos sobre diferentes coisas da cultura chinesa, e mais especificamente sobre o Shuaijiao, e lá fora… os estalos do chicote. Já faziam duas horas e o som não parava. Os caras estavam treinando sem parar. Os estalos do chicote marcavam o tempo e o ritmo das nossas conversas e é claro, da comida. Como não conseguimos nenhuma foto do pessoal treinando, vou colocar um pequeno vídeo do treinamento de chicote de um membro da escola de Shuaijiao do Mestre Li Baoru (click aqui para ver o vídeo).

Em um dado momento Mestre Ma e o nosso anfitrião sr. Sheng, o dono do restaurante, começaram a explicar as fotos que estavam na parede. Eram fotos de amigos e mestres de Shuaijiao. A mais antiga era de 1958 retratava a seleção de Beijing que estava indo a um campeonato nacional. Estavam nas fotos pelo menos três gerações de professores de Shuaijiao de Beijing. Um tesouro em termos de imagens e de histórias que elas contam.DSC06811

DSC06827Uma verdadeira aula de história, cultura e costumes de Beijing, e do Shuaijiao de Beijing. Momentos raros como esse ficam na memória para sempre e nos fazem entender melhor o Shuaijiao e a cultura chinesa. Possibilita que nosso aprendizado seja mais qualificado e nos incentiva a continuar treinando e aprendendo. Aliás, a continuidade do aprendizado e do treinamento são fatores preponderantes para a nossa boa formação como praticantes e futuramente como bons professores.DSC06818

SISTEMA DE GRADUAÇÃO DO SHUAIJIAO NO BRASIL: ORGANIZAÇÃO, PROPOSTA E DESENVOLVIMENTO

Observando o resultado dos assuntos que mais despertaram interesse inicial, durante as primeiras semanas do Blog, o Sistema de Graduação foi o campeão disparado. Assim, como o objetivo do Blog é informar, de forma mais clara possível, escrevo esse post para apresentar esse tema, que vem causando polêmica. Então vamos lá.

Aprendi e me formei em Shuaijiao com o professor Roberto Baptista, por coincidência meu irmão de Shaolin Norte, pois somos alunos do Grão-Mestre Chan Kwok Wai. Com o professor Roberto aprendi o Baoding Shuaijiao, que ele aprendeu nos Estados Unidos da América com o Mestre John Wang, discípulo direto do Mestre Chang Dongsheng.CTSPhoto

O Mestre Chang Dongsheng implantou o Shuaijiao nos Estados Unidos da América durante o final da década de 1970 e início da década de 1980 através de diversos de seus alunos que estudaram com ele em Taiwan. Entre eles estava o Mestre John Wang. Nessa época Mestre Chang Dongsheng propôs um sistema de graduação a ser implantado em todas as escolas de seus alunos. Após a sua morte, cada um de seus professores assumiram diferentes caminhos e consequentemente concepções de graduação para as suas escolas.

Quando me formei a orientação para graduação preconizada pelo Mestre Wang, seguindo a proposta do Mestre Chang Dongsheng, era composta de cinco graduações antes da faixa preta e posteriormente outras graduações. A primeira graduação era o 5° jie, em sequência vinham o 4° jie, 3° jie, 2° jie e 1° jie. Após esse último vinha o 9° deng (faixa preta) ou professor. Assim, a organização era dividida em três cores de faixa. A primeira era a faixa branca (5° e 4° jie), a segunda a faixa azul (3°, 2° e 1° jie) e a terceira era a faixa preta (9° deng). Após essa graduação vinham outras. Outros Dengs.

Quando fui convidado pelo Mestre Nereu Graballos a fundar, organizar e assumir o Departamento de Shuaijiao da Confederação Brasileira de Kungfu Wushu (CBKW) em 2004, uma das minhas tarefas era organizar os conteúdos do Shuaijiao a ser ensinado e também um sistema de graduação que se aproximasse com a cultura ocidental, e que pudesse ser compreendida facilmente. Outra questão importante era que essa organização contemplasse uma progressão pedagógica para que o ensino e formação de novos professores fosse fácil.

Esse trabalho inicial partiu da organização utilizada pelo Mestre John Wang de 14 níveis de graduação, sendo 5 jies e 9 dengs. Entretanto havia a necessidade de dividir mais os conteúdos, pois eles se concentravam em poucos níveis e não permitiam uma progressão mais gradual. Assim, foram introduzidos três jies adicionais, formando 8 jies e 9 dengs.

Nessa organização de graduação foram formados 2 professores em 2005, um do Rio de Janeiro e outro da Argentina. Em 2006 foram formados 9 professores (9° Deng) em São Paulo. No ano seguinte foram 8 professores (9° Deng) em Minas Gerais e em 2011 foram 15 professores (9° Deng) no Ceará. Em São Paulo, Minas Gerais e Ceará, todos os professores formados participaram dos cursos de formação de professores da Confederação Brasileira de Kungfu Wushu, ministrados por mim.DSC01347

Após a minha decisão de me afastar da diretoria de Shuaijiao da CBKW, depois de sete anos de trabalho contínuo para o desenvolvimento institucional da modalidade, continuei a desenvolver o Shuaijiao através de cursos, seminários e viagens à China para aprimoramento técnico. A graduação desenvolvida para a CBKW na época da minha gestão continuou a ser utilizada por mim e por diversos professores que se formaram nos cursos ministrados sob a minha coordenação. Acreditando que esse é um trabalho de qualidade, baseado nos princípios pedagógicos que qualificam o aprendizado e o ensino, e que são os mais modernos do campo da educação física e da pedagogia do esporte.EXAME FORTALEZA 2011

Entendo também que esses sistemas de graduação visam a atender a uma demanda de países ocidentais predominantemente. Na China, em especial na escola que aprendo atualmente, não há sistema de graduação. Ou você é aluno ou professor. Mas para a lógica brasileira vejo esse sistema como um grande avanço para a divulgação do Shuaijiao. Existem outras escolas que possuem sistemas de graduação bem estruturado aqui no Ocidente. Um exemplo é a academia do Mestre Daniel Weng. O sistema dele também é uma adaptação do que foi preconizado pelo Mestre Chang Dongsheng, assim como o nosso.

Os professores e instrutores que fazem parte do time Shuaijiao Brasil seguem o sistema que foi organizado por mim, a partir do trabalho que desenvolvi em resposta a solicitação do Mestre Nereu Graballos, na época em que ele foi presidente da CBKW. Segue abaixo a demonstração gráfica do nosso sistema de graduação.

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Iniciando o trabalho

logo shuaijiao pb-002Todo início, seja do que for, é trabalhoso. Começar algo do zero é muito difícil. Sair da inércia é difícil. Mas, temos que começar um dia, ou outros o farão.

Assim, a partir de uma sugestão da Gabriela, minha esposa, comecei o Blog. A ideia da Gabriela foi excelente, não tinha pensado nisso antes. E fiquei pensando… como não tinha pensado nisso antes? É óbvio! O óbvio é enxergado por poucos. Daí as grandes ideias.

Deixando os elogios indispensáveis para trás, fica o trabalho que me é esperado. Publicar informações de relevância é o meu objetivo. Informações que contribuam para a divulgação e difusão do Shuaijiao no Brasil é a minha tarefa. Portanto, comecei agora, hoje, domingo, dia 31 de agosto, para continuar um trabalho iniciado no ano de 2004, quando assumi o cargo de diretor técnico de Shuaijiao da Confederação Brasileira de Kungfu Wushu (CBKW), a convite do saudoso Mestre Nereu Graballos.

O trabalho na CBKW durou até 2011, e contemplou inúmeras conquistas, porém ele continuou fora da esfera institucionalizada e ganhou o Brasil de outras formas, porém, com aspirações de crescimento que também incluem a dimensão esportiva.

E aqui estou, em mais uma forma de fazê-lo, com a certeza de que será um esforço verdadeiro e significante, mas também, gratificante. Espero que todos gostem, mas também, se não gostarem serei todo ouvidos.

Espero sua crítica, sugestão, ideia, ou apenas sua leitura. Mas, espero contribuir com o avanço da prática e das reflexões críticas sobre essa arte marcial tão antiga na China, mas tão jovem no Brasil.