O EFEITO PERVERSO DA FORMAÇÃO FAST FOOD NO SHUAIJIAO BRASILEIRO (PARTE 2)

Como vocês podem perceber esse tema tem muitos desdobramentos e, para melhorar o diálogo, preferi dividir o texto em partes. Nessa segunda parte vou abordar algumas questões que são periféricas ao problema da formação Fast Food no Brasil, especificamente no Shuaijiao. Começo enumerando essas questões e depois vou explorar cada uma delas. São elas:

  • O tempo necessário para o aprendizado se consolidar;
  • A relação necessária entre professor e aluno;
  • A presunção que saber algum estilo de kungfu é pré-requisito ou autoriza alguém a ensinar Shuaijiao;
  • E o efeito deletério do ensino quando aquele que pretende ensinar não tem os requisitos fundamentais para ser um professor de Shuaijiao.

Quanto ao tempo necessário para o aprendizado do Shuaijiao: Diferentes estilos de artes marciais pelo mundo necessitam de um tempo mínimo para que o praticante se torne, primeiro um monitor e, depois, instrutor, trabalhando sob a supervisão de seu professor. Mesmo que essa etapa seja informal ou não faça parte declaradamente na graduação, é parte da formação. Depois, com esse treino, se tornará um professor. O tempo necessário, verificado em diferentes artes marciais, fica entre 5 e 10 anos de prática, sempre sob a orientação de professores qualificados. Podemos nos aprofundar no tema lendo o artigo “A relação entre as artes marciais e lutas das academias e as disciplinas de lutas dos cursos de graduação em Educação Física” disponível AQUI.

Se artes marciais como judô, karatê, diferentes escolas de kungfu, Muay Thai, entre outras, demandam alguns anos para formar um professor, como o Shuaijiao poderia certificar uma pessoa em um fim de semana? O que está se pretendendo com esse tipo de trabalho? Na literatura já se discutiu bastante sobre a necessidade de um tempo específico entre o ensino e a consolidação da aprendizagem nas diferentes dimensões, sejam cognitiva ou motora. Em relação ao ensino e aprendizagem da dimensão motora, de técnicas corporais e de esportes podemos citar algumas obras como Tani e Corrêa (2016), Tani (2005), Schimidt e Wrisberg (2010), Magill (2002) e Gallahue, Ozmun e Goodway (2013). Para os interessados esses autores e suas obras estão referenciados no final deste texto.

Portanto, cursos que, em um fim de semana, formam professores são, no mínimo, uma mentira forjada por quem os propõe. Mentir nessa área é arcar com a responsabilidade da lesão (psicológica, física e social em curto, médio e longo prazo) dos que aprendem nesse sistema e, principalmente, dos que irão aprender com aqueles que se acham formados a partir dessa farsa. O dano é permanente e a longo prazo, piorando a medida que se espalha.

Daí fica a questão: por que me submeto a esse modelo se sei que é uma farsa? Não é essa uma informação privilegiada. Todos os professores de artes marciais conhecem a questão temporal do ensino e do aprendizado.

Além do tempo necessário para essa maturação, também é fundamental o tempo da prática. Quantas horas de prática são necessárias para a consolidação de um conhecimento? Especificamente nas artes marciais? Nós sabemos que, sem a prática, não é possível ser proficiente em nada. Lembrando do ditado popular, ‘a prática leva à perfeição’, assim, a falta de prática, de experiência, leva à… Quem adivinha?

É necessária a responsabilização daqueles que criam esse tipo de modelo baseado na farsa da aprendizagem rápida. Já vimos que isso não é possível, pois, há a um tempo específico para que a nova informação se acomode e possa ser usada de modo autônomo, preparando corpo e raciocínio para a próxima etapa de novas aprendizagens.

E, àqueles que passaram por esse tipo de mentira, dêem um passo atrás, sejam éticos agora, ainda há tempo. Não ensinem aquilo que não tem maturidade de aprendizado para ensinar. Não ensinem aquilo que não dominam, que não conhecem, que não compreendem. O aprofundamento no aprendizado é essencial para o ensino.

No próximo post continuarei esse tema escrevendo sobre a relação necessária entre professor e aluno. Aguardem!

Referências

ANTUNES, M. M. A relação entre as artes marciais e lutas das academias e as disciplinas de lutas dos cursos de graduação em Educação Física. Lecturas, Educación Física y Deportes, Revista Digital, Buenos Aires, Año 14, Nº 139, Diciembre, 2009.

GALLAHUE, D. L.; OZMUN, J. C.; GOODWAY, J. D. Compreendendo o desenvolvimento motor: bebê, criança, adolescente e adulto. 3ed. São Paulo: Phorte, 2013.

MAGGILL, R. A. Aprendizagem motora: conceitos e aplicações. São Paulo: Edgard Blücher, 2002.

SCHMIDT, R. A.; WRISBERG, C. A.  Aprendizagem e performance motora: uma abordagem da aprendizagem baseada na situação.  4ed. Porto Alegre: ArtMed, 2010.

TANI, G. Comportamento motor: aprendizagem e desenvolvimento. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2005.

TANI, G; CORRÊA, U. C. Aprendizagem motora e o ensino do esporte. São Paulo: Edgard Blücher, 2016.

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Um pensamento sobre “O EFEITO PERVERSO DA FORMAÇÃO FAST FOOD NO SHUAIJIAO BRASILEIRO (PARTE 2)

  1. Estimado Prof. Marcelo Antunes,

    Sua preocupação com a formação de professores é constante em seus escritos, pesquisas e, principalmente, no ensino de artes marciais, especialmente o Shuaijiao.

    Sabemos que na sociedade moderna, da pressa, a formação rápida ‘fast food’ encontra adeptos porque estão adestrados ao sistema televisivo, sistema de enganação permanente, de “novelas”, de filmes, isto é, submetidos e inseridos no modelo de ficção.

    Infelizmente, o sistema educacional brasileiro é precário e pouco prepara, intelectualmente e afetivamente, a geração de estudantes, que são hoje professores de artes marciais, para que tenham condições de enxergar o fundo de propostas miraculosas e ilusórias, no pior sentido do termo, por outro lado, fico feliz e grato por conhecer o seu trabalho de ensino de artes marciais por saber que há uma luz no fundo do poço, aliás, bem no fundo.

    No geral, o ensino de artes marciais, e não é só o Shuaijiao, tem sido objeto de experimentos que, sem levar em consideração o sentido profundo de formação do caráter, para além ou junto de técnicas, não oferece o devido tempo (kairós e não só o kronos) para a consolidação do conhecimento.

    Nos tempos da pressa, a ilusão de que se sabe vale mais do que o conhecimento. Fotos publicadas em redes sociais, em um seminário de final de semana, com um certificado, têm validade, para leigos e ignorantes, como se fossem comprovante de algum tipo de conhecimento.

    Enfim, viva a ignorância social e feliz daqueles que procuraram um trabalho sério, acadêmico, marcial, com respaldo de legítimos e consagrados mestres de Beijing, como é o caso do Shuaijiao Brasil. Aos demais, fracos e ignorantes, meus sentimentos!!

    Saudações,
    Samuel Mendonça, Pd. D./Pesquisador do CNPq
    Professor do Programa de Pós-Graduação em Educação da PUC Campinas

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