O EFEITO PERVERSO DA FORMAÇÃO FAST FOOD NO SHUAIJIAO BRASILEIRO

Já tem algum tempo que não escrevo um post por aqui. Estou muito envolvido com o projeto da Confederação Brasileira de Shuaijiao (CBShuaijiao). Mas, nos últimos tempos tenho percebido um fato recorrente nos praticantes de Shuaijiao no Brasil que me instigou a escrever este aqui. A insegurança e as dúvidas sobre o conteúdo do Shuaijiao aprendido nos cursos de fim de semana no Brasil pelos “professores” formados nesses cursos.

Recebo muitas mensagens sobre essas dúvidas, sobre qual o nome correto da técnica, como é sua correta execução e ainda, como se aplicam essas técnicas de forma eficiente no treinamento e na luta. E solicitam essas respostas perguntando se temos vídeos das técnicas ou materiais que os auxiliem a dirimi-las. Ou ainda, se posso supervisioná-los à distância. São várias dúvidas! São muitas incertezas para “professores formados”. Mas, o que mais me impressiona é a falta do acompanhamento de um professor mais experiente.

FAIXA BRANCA

Esse fato me forçou a fazer uma reflexão sobre esse fenômeno. Assim, identifiquei dois fatos que se completam como yin e yang. O primeiro fato é a oferta de cursos de fim de semana com visível objetivo de captação de recursos e manipulação política imediata sem a preocupação com o desenvolvimento da modalidade e sua sobrevivência no médio e longo prazo. Esses cursos têm como característica principal seduzir os desavisados, ou nem tanto assim, pela oferta de uma formação rápida, com certificado oficial de uma entidade de nível nacional e o reconhecimento como professor ou instrutor da modalidade, dessa forma, tendo alguns “benefícios” junto a essa entidade. O segundo fato é o próprio praticante que é “seduzido” a fazer essa “formação”, ou “adequação” ou “nivelamento”, seja lá qual nome que se use, cedendo aos encantos das promessas dessas entidades.

No primeiro fato é óbvio concluir que o interesse por captar verbas através de cursos rápidos e também para se ampliar os tentáculos de controle em diferentes locais são os objetivos principais. Resumindo, dinheiro e poder. No segundo fato a coisa se complica ainda mais. Podemos abordar o problema por dois caminhos diferentes. Primeiro caminho, o praticante “seduzido” desconhece outras formas de se aproximar da modalidade que ele acha interessante e/ou complementar ao seu trabalho. Segundo caminho, o praticante tem conhecimento de que esse tipo de formação é a mais fácil para alcançar um certificado para coloca-lo na parede esperando uma legitimidade não conquistada pela dedicação de alguns anos a essa FORMAÇÃO. Atualmente, pensar em desconhecimento é quase infantil, pois, a informação está disponível na WEB em diferentes níveis, e é muito fácil encontra-la a partir de uma busca rápida no Google.

FAIXA PRETA NOVOPortanto, só nos resta a constatação que a sedução na realidade não acontece. O que ocorre é o encontro de interesses que muito se afastam do que chamamos de Wude (武德) ou ética marcial. Sobre isso podemos citar alguns elementos constitutivos de wude como, Qianxu (谦虚) a humildade ou a modéstia; Zhengyi (正义) a retidão e a justiça; Xin (信) a verdade ou ter credibilidade; Rennai (忍耐) a paciência e a resistência; e Hengxin (恒心) a perseverança. Para os interessados no tema sugerimos o artigo intitulado ‘Ethos e Wude como fundamentação da ética marcial’ (click aqui para ler o artigo).

Assim, o praticante se deixa tragar, intencionalmente, por uma lógica que conflita diretamente com os valores das artes marciais chinesas, tentando encurtar o caminho que oferece, segurança, amadurecimento, experiência e condições concretas de ensinar sua arte aos outros. Como uma pessoa pode ensinar aquilo que não domina? Esse é o caminho para tornar a modalidade frágil, sem estrutura e sem reconhecimento, e isso atinge diretamente seus praticantes.

FAIXA PRETA EXPERIENTEPara que a modalidade cresça seriamente no Brasil e seus praticantes sejam respeitados pela sociedade é necessário que sua prática seja SEMPRE realizada sob a orientação de um professor experiente e competente, e que a conquista de um diploma de PROFESSOR seja alcançado através de muitos anos de PRÁTICA devida e constantemente orientada. Sem isso não há futuro para os praticantes, para os “professores” e para a modalidade.

Qual é a sua escolha? Insegurança e dúvida?

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2 pensamentos sobre “O EFEITO PERVERSO DA FORMAÇÃO FAST FOOD NO SHUAIJIAO BRASILEIRO

  1. Prof. Marcelo, ler seu post em que a ética (wude) é apontada como ponto de inflexão entre a compreensão e desenvolvimento do Shuaijiao e a insegurança de instrutores é inspirador. Pouca atenção é dada à ética em nossa sociedade como um todo e em muitas entidades que lidam com o esporte, especialmente as artes marciais. Pouco se discute sobre os efeitos de ações mercadológicas nas artes marciais em relação à formação de instrutores. Pouco se nota da demolição de princípios éticos por meio de cursos “fast food”, fazendo referência ao tema de seu post, nas artes marciais, especialmente no Shuaijiao. Enfim, a responsabilidade de compreensão e formação de instrutores tem relação direta com gestores do esporte e, por isto, sua reflexão evidencia o compromisso da Confederação Brasileira de Shuaijiao no Brasil, de forma singular e ancorada em princípios do wude. Esta bandeira interessa muito a quem aprecia o desenvolvimento das artes marciais, minimamente, de forma contextualizada na cultura chinesa.

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