A HISTÓRIA CONTADA PELOS JIAOYI

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Uma das grandes dificuldades de se praticar alguma modalidade esportiva ou de arte marcial, nova ou diferente, é a carência de equipamentos, materiais e infraestrutura. Esse obstáculo também ocorre para modalidades que já estão estabelecidas e amplamente conhecidas. Para o Shuaijiao no Brasil isso não é diferente.

Com a chegada do Shuaijiao no Brasil durante a década de 1990, o número inicial de praticantes era pequeno e não havia roupa adequada para a prática, ou seja, não havia Jiaoyi. Esse problema foi inicialmente contornado com a adaptação de quimonos de judô contando as mangas até a altura do meio do braço. Mas não era um material adequado, a lapela grossa favorecia uma pegada no quimono que não há no jiaoyi.

Com o desenvolvimento da modalidade, mesmo pequeno, houveram algumas iniciativas de fazer um jiaoyi adequado para a prática apropriada do Shuaijiao. Assim, algumas empresas como a JUGUI e a AGO, que usualmente trabalham com materiais esportivos, iniciaram uma produção pequena de jiaoyi feito de tecido trançado utilizado para confecção de quimonos de judô e jiujitsu. Os primeiros que tivemos, mandamos fazer com um modelo que ganhei do Mestre Nereu. Esse jiaoyi que me foi presenteado, veio de Taiwan, quando o Mestre Nereu esteve naquele país para intercâmbio técnico e estreitamento político com a International Kuoshu Federation. Nessa época, no início da década de 1990, a Confederação Brasileira de Kungfu Wushu (CBKW), estava na busca de se internacionalizar.

Bom, voltando ao jiaoyi, Mestre Nereu ganhou dos organizadores dos cursos internacionais de wushu tradicional em Taiwan um jiaoyi especial preto, dentro dos padrões de qualidade chineses que hoje temos acesso.

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Jiaoyi de Taiwan

Continuando a história do jiaoyi, mandamos confeccionar em uma costureira no subúrbio do Rio de Janeiro os primeiros que usamos aqui no Rio. Eles eram azuis e foram usados no primeiro curso de formação de professores de Shuaijiao ministrado pelo professor Roberto Batista em 1995. Também foram usados em algumas competições da época.

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Jiaoyi feito em trançado azul

Em paralelo a JUGUI começava a fazer os modelos dela. Também eram feito de tecido trançado, mas as costuras laterais não suportavam muito tempo os treinos de Shuaijiao. Após a tentativa com a costureira, entramos em contato com uma fábrica de quimonos de judô e jiujitsu. Fizemos então os primeiros com um fabricante profissional o que resultou em um jiaoyi mais reforçado. Porém, como o número de pedidos era pequeno, o dono da fábrica não continuou a confeccionar.

Fizemos alguns testes com costuras diferentes, tecidos de espessuras diversas, e outros fabricantes, mas não conseguimos chegar a um produto eficiente. O grande teste foi durante a minha participação no Panamericano de Wushu no Canadá em 2006. Durante a primeira luta, meu jiaoyi de tecido trançado e reforçado foi rasgado pelo meu oponente chinês. Foi uma surpresa. A sorte que que havia levado mais de um e consegui terminar o campeonato com os que levei. Mas percebi que não estávamos perto do padrão necessário à prática do Shuaijiao.

Em 2008, com a minha viagem à Beijing para treinar na escola dos mestres Ma Jianguo e Li Baoru, entrei em contato com o jiaoyi padrão correto. Foi uma descoberta gratificante. Comprei alguns na cor azul e vermelho para mim e para alguns alunos meus. Quando cheguei ao Brasil o problema persistia. A partir desse modelo que trouxe de Beijing, tentamos fazer uma versão brasileira. O professor Marcelino, do Ceará, confeccionou os primeiros jiaoyi genéricos, que rapidamente fez sucesso com os praticantes nacionais. Já não usávamos o tecido trançado, copiamos a sobreposição de tecidos costurados juntos. Porém, outros fabricantes insistiam em utilizar o tecido trançado de quimonos.

Com as viagens seguintes à China, novas tentativas de viabilizar a compra por brasileiros foram feitas, mas ainda sem sucesso. O tramite de importação é muito complexo e caro, e o número de praticantes no Brasil ainda é muito exíguo.

Na busca do padrão usado na China, pesquisei em diversos livros sobre Shuaijiao e em alguns localizei as medidas padronizadas aceitas para competições. Isso forneceu condições de melhorarmos a nossa produção. Na verdade a produção do professor Marcelino, responsável em fornecer jiaoyi para o nosso grupo.

A compra do jiaoyi ainda é um desafio. A produção brasileira ainda não é suficiente. Constato isso pela observação dos diferentes grupos que treinam Shuaijiao no Brasil, pois muitos ainda adaptam quimonos de judô ou jiujitsu para a prática da modalidade.

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Jiaoyi comprado na última viagem à Beijing, China, em 2016.

Entretanto, percebo uma gradual mudança. Temos a venda de jiaoyi pela internet em sites internacionais com possibilidade de entrega no Brasil. A produção interna está melhorando seus processos e o número de praticante está crescendo, o que em breve favorecerá o interesse de fabricantes diferentes em produzir o uniforme de treino. Continuamos na luta!

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3 pensamentos sobre “A HISTÓRIA CONTADA PELOS JIAOYI

  1. Olá Prof. Marcelo Antunes, tudo bem?

    Meu nome é Frederico. Estou iniciando na prática do Shuai Jiao e tenho gostado muito. O livro do senhor é excelente, por sinal. É profundo, detalhado, bem ilustrado e muito bem escrito.

    Gostaria de saber onde ou com quem o senhor consegue comprar ou mandar fazer os Jiaoyi? Se puder me passar o contato eu agradeço muito. Pode ser pelo e-mail.

    Desde já agradeço a atenção.

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    • Prezado Frederico,
      Temos o professor Marcelino como responsável pela confecção dos jiaoyi do nosso grupo. Ele tem atendido a diversos pedidos. O contato dele é marcelinomendes2012@gmail.com. Outra alternativa é comprar pelo Aliexpress. Conseguimos comprar sem problema o jiaoyi oficial da China.
      Espero ter ajudado.
      Atenciosamente,
      Marcelo Antunes

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