SHUAIJIAO TRADICIONAL VERSUS SHUAIJIAO ESPORTIVO: UM FACTÓIDE CRIADO NO BRASIL

Marcelo Moreira Antunes

img015-2

Capa do livro Bainien Jingjiao. Autobiografia do Mestre Li publicada em 2015.

Para começar a discutir o Shuaijiao no Brasil é necessário recuperar a memória de sua introdução e seu desenvolvimento por aqui. Iniciando-se durante a primeira metade da década de 1990, pelas mãos dos professores Roberto Batista e Li Wingkay, ambos pela linhagem do Mestre Chang Dongsheng, de Taiwan, via Estados Unidos da América (EUA). O Professor Roberto, também conhecido como Betão, aprendeu Baoding Shuaijiao com o mestre John Wang no Texas e o Professor Li Wingkay aprendeu Baoding Shuaijiao com o mestre Daniel Weng, também nos EUA. Ambos os mestres aprenderam com o Mestre Chang Dong Sheng em Taiwan, a partir do modelo de ensino e conteúdos que foram organizados para atender as demandas da academia de policia daquele país, após a queda da primeira república da China em 1949. Mestre Chang Dong Sheng era partidário do Kuomintang, e com a queda do regime de Chian Kai Shek, teve que fugir para Taiwan junto com alguns compatriotas.

img016

Fotos do mestre Li do livro Bainien Jingjiao demonstrando exercícios com o Jiudao e de equilíbrio e força com uma roda de carroça.

Essas duas linhagens se difundiram no Brasil, independentemente uma da outra, apenas sendo Shuaijiao. E é isso que o Shuaijiao é… Shuaijiao! A partir de 2008 comecei o trabalho no Brasil com o Beijing Shuaijiao, que passei a treinar em Beijing, na China, como o mestre Li Baoru e seu aluno direto, mestre Ma Jianguo. Mestre Li e Mestre Ma são considerados autoridades do Shuaijiao na China, com projeção internacional, desenvolvendo um trabalho integrado à comunidade chinesa tanto nos aspectos culturais, quando nos políticos. É importante pontuar que o Shuaijiao atende a comunidade não apenas como prática corporal que visa a saúde, mas também as dimensões do esporte, lazer e educação.

Esse Shuaijiao engajado reflete uma tradição[1] que se constituiu através dos tempo desde a a antiguidade, destacando as dinastias Qin (221-206 a. C.), Han (206 a.C. – 220 d.C.), Yuan (1271-1368 d.C.), Ming (1368-1644 d.C.) e Qing (1644-1911), e se desenvolvem com esse viés até a atualidade.

img017

Fotos do mestre Li do livro Bainien Jingjiao treinando lançamento de Shadai e de técnicas de projeção.

Sendo uma arte marcial chinesa com pouco tempo de desenvolvimento no Brasil (menos de 30 anos) possui uma certa superficialidade e muitas imprecisões a seu respeito, o que causa concepções imaturas a cerca de suas características, conteúdos, formas de treino, história e constituição. Esses equívocos se tornam verdades superficiais e são repetidas com frequência, sendo divulgadas por pessoas que não estão se aprofundando no estudo do Shuaijiao, não possuem conhecimento amplo, tendo formação muitas vezes superficial ou duvidosa na modalidade.

Senti-me compelido a escrever esse texto ao ser confrontado com versões fantasiosas a respeito da prática e dos estilos e pelo fato de, constantemente, escutar uma falaciosa comparação entre o Shuaijiao “tradicional” e o Shuaijiao “esportivo”. Diversos professores afirmando que o seu Shuaijiao é esportivo, que o Shuaijiao daquele professor é tradicional, e outras bobagens proferidas por pessoas que conhecem pouco dessa arte marcial chinesa, ou que reproduzem o senso comum apresentado em diversas academias de kungfu espalhadas pelo Brasil. Esse vínculo do Shuaijiao com o kungfu gera outros efeitos perversos, a serem discutidos em um futuro post, mas, por ora, vou me concentrar em desconstruir pernicioso senso comum que está sendo construído por pessoas desinformadas e, muitas vezes, mal intencionadas, sobre diferenças que não existem.

Aos Fatos:

Devemos compreender que o Shuaijiao possui diversas facetas, a folclórica, a esportiva, a da saúde, entre outras. Isso depende dos diferentes interesses dos seus praticantes. Portanto, adotar apenas um ponto de vista na análise do Shuaijiao, é avalia-lo a partir de uma visão deturpada, limitada e pouco aprofundada do que essa prática corporal representa para a cultura chinesa e para seus adeptos espalhados pelo mundo.

O Shuaijiao se constitui das técnicas de projeção, formas, treinos com equipamentos e diversas práticas folclóricas como tiro com arco Layinggong (拉硬弓)[2], técnicas com Jiudao (举刀)[3] e o famoso zhongfan (中幡)[4]. Essas técnicas do Shuaijiao cultural, folclórico ou tradicional, como queira, estão descritas nos dois últimos livros do mestre Li Baoru, demonstrando sua proximidade com esses conteúdos antigos. Mestre Li, assim como o mestre Ma, apesar de seu envolvimento com a organização esportiva, ou mesmo alinhado com esse aspecto, possuem um forte vínculo com as questões mais culturais do Shuaijiao. Desse modo, os seus alunos estão envolvidos diretamente com questões tradicionais ligadas ao Shuaijiao.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Outra questão importante é que o Shuaijiao se desenvolve a partir do confronto direto com um oponente, aspecto do treinamento que se destaca. Sem a luta ou o combate o shuaijiao não se realiza. Então, historicamente, os praticantes de Shuaijiao se colocam a prova em disputas com outros praticantes, sejam do mesmo grupo ou de grupos distintos. Regras e práticas são criadas para possibilitar o treinamento fluido, intragrupal, do combate, preservando colegas praticantes; assim como para possibilitar combates controlados entre grupos diferentes.

Essas regras, criadas de forma a preservar e desafiar os praticantes, não gerando violência e conflitos sociais e políticos desnecessários, permitem que os confrontos ocorram com maior frequência. A diminuição do aspecto da violência deve ser explicada pela necessidade dos grupos sociais de se relacionarem para realizar comércio ou trocas culturais. Tais relações se dão em diferentes níveis de proximidade, como entre cidades, países ou grupos fronteiriços. Esse processo de diminuição dos atritos e da violência entre grupos é chamado de Processo Civilizatório e é mola propulsora do desenvolvimento humano, sendo cerne cultural de aspectos tão diversos quanto essenciais da formação e da identidade de todos os povos da terra.

Assim, a dimensão esportiva do Shuaijiao se constitui como apenas uma de suas facetas tradicionais e que depende apenas da adaptação às regras das competições a qual seus praticantes desejam participar. Portanto, afirmar que o Shuaijiao é esportivo ou tradicional é, em essência, uma compreensão equivocada ou parcial dessa arte marcial chinesa, o que não auxilia de forma alguma o desenvolvimento dessa modalidade no Brasil. O Shuaijiao é a expressão de todos os seus aspectos e não apenas de um deles, e o combate, sua manifestação mais essencial.

O uso do termo ‘Tradicional’ tem funcionado como avalizador de ‘distinção’ e de ‘qualidade ilibada’ da prática e do ensino da arte marcial no Brasil. Esse termo, porém, funciona como véu que esconde deficiências e superficialidades inerentes aos praticantes com conhecimento limitado do Shuaijiao. O termo cria um falso empoderamento dos ‘mestres’ isentando-os da exposição frente aos confrontos ou disputas tão essenciais ao desenvolvimento do Shuaijiao. Essa aura de mistério cria o isolamento social e a falsa percepção da qualidade do conhecimento e da experiência prática, destacando aquele ‘mestre’ em sua bolha protetora além do bem e do mal e acima dos demais praticantes.

equipamentos-de-treinamento-3

Outros equipamentos tradicionais de treino utilizados por orientação do mestre Li.

REFERÊNCIAS

  1. ANTUNES, M. M. Introdução ao Shuaijiao: teoria e prática. São Paulo: Phorte, 2014.
  2. BURKE, P.; HSIA, R. P. A tradução cultural nos primórdios da Europa Moderna. São Paulo: UNESP, 2009.
  3. ELIAS, Norbert. Ensaio sobre o desporto e a violência. In: ELIAS, Norbert; DUNNING, Eric. A busca da excitação. Lisboa: Difel, 1992.
  4. HOBSBAWM, E.; RANGER, T. (Orgs). A invenção das tradições. 6ed. São Paulo: Paz e Terra, 2008.
  5. LI, Baoru. Jinjiao Xihua. Beijing: Xinhua, 2004.  李宝如。 京跤史话. 北京:新华出版社, 二00四。
  6. LI, Baoru. Tujie Zhongguojiao. Beijing: Renmin Tiyu Chubanshe. 图解中国跤。 北京: 人民体育出版社。二0十一。
  7. LI Baoru. Bainian Jingjiao: Shuaijiao Mingshi Li Baoru Koushulishi. Beijing: Yanshan Chubanshe, 2014. 百年京跤:摔跤名师李宝如口述历史。李宝如口述。北京: 燕山出版社。二0十四.

[1] Para o melhor entendimento do conceito de ‘Tradição’ e de ‘Invenção das tradições’, sugiro a leitura de Hobsbawn e Ranger (2008) e Burke e Hsia (2009).

[2] O tiro com arco é uma tradição inserida na prática do shuaijiao desde a dinastia Qing dentro da escola Shangpuyin, influenciada pelo intercâmbio com os lutadores mongóis.

[3] Kuandao ou grande lamina, é uma arma tradicional chinesa que faz alusão ao general Guan Kun.

[4] Poste colorido é uma prática que visa demonstrar a força e o equilíbrio dos praticantes de shuajiao. Normalmente realizada durante as festividades tradicionais chinesas. Trata-se de um poste de madeira com cerca de 4 metros de comprimento, adornado com tiras de seda colorida e o estandarte da escola a qual pertence. Um dos praticantes realiza malabarismos equilibrando o posto sobre a cabeça, mãos e tronco durante as demonstrações.

Anúncios

Um pensamento sobre “SHUAIJIAO TRADICIONAL VERSUS SHUAIJIAO ESPORTIVO: UM FACTÓIDE CRIADO NO BRASIL

  1. Estimado Prof. Antunes, excelente post que, mais uma vez, evidencia equívocos construídos ao longo do tempo no Brasil, sobre o Shuaijiao. Em que pese o fato de que o post trata do Shuaijiao e o Shuaijiao é algo distinto, radicalmente, do wushu, como você evidenciou em outra publicação, a distinção tradicional x esportivo (moderno), parece-me, além de servir como estratégia de fuga do que há de mais importante no mundo da luta que é o verbo lutar, evidencia, também, equívoco no contexto do wushu; afinal, quando estive na China, em 2014, em Shanghai e Beijing, perguntei para as poucas pessoas que conheci que lidavam com arte marcial sobre esta distinção: tradicional x moderno e eles desconheciam e não entendiam o que eu estava falando.

    Seu post, neste sentido, elucida para a toda comunidade de arte marcial que não se satisfaz com verdades prontas, – mas que, ao invés disto, estuda e busca respostas plausíveis a este mundo recepcionado no Brasil de forma absolutamente “mítica e mística” (no sentido pejorativo dos termos), isto é, de forma alegórica, assistemática e desorganizada, – que há muito a descortinar deste universo das artes marciais chinesas e seus estudos nos ensinam muito. Obrigado pelo esforço em proporcionar a quem tem interesse em conhecimento, conhecer…

    Saudações,

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s