INQUIETAÇÕES DE UM ARTISTA MARCIAL: O CONCEITO DE LUTA DO MESTRE NEREU GRABALLOS (IN MEMORIAM)

Samuel Mendonça

www.brendanlai.com

com-nereu-2013

            Mestre Nereu Graballos[1] desenvolveu aguçada e eficiente compreensão sobre o conceito de luta. Mais do que um conceito, ele praticou a luta em sua vida, nas diversas dimensões que cada um possa imaginar, inclusive aquela que inclui um outro humano, o adversário, mas, para mim, seu maior adversário foi ele mesmo. Interlocutor para assuntos da vida, tive a honra de participar, na Central Kungfu/Wushu na cidade de Campinas, SP, do Prof. Enrique Ortega, de um curso de formação de instrutores de artes marciais. Convidado por ele para tratar de filosofia, aproveitei a oportunidade e anotei suas intervenções por ocasião do debate e apresento, de forma sintética, pressupostos do que nomeio “Inquietações de um artista marcial: o conceito de luta do Mestre Nereu Graballos (in memoriam)”. O que escrevo é de minha responsabilidade e, por certo, trata-se de uma interpretação e não de uma acepção de verdade sobre luta em torno de um dos maiores nomes do Brasil sobre o gongfu/wushu.

            Medo e insegurança foram conceitos elementares tratados no curso de filosofia e, de certo modo, constituem-se leitmotiv de lutadores. Se de um lado, por meio da prática de artes marciais, se busca a segurança, é justamente por diagnosticar a sua falta, isto é, a insegurança. Curioso notar que se há uma situação mais séria, mais radical, muitos praticantes optam pela fuga à luta como estratégia para manter a ilusão da segurança. De fato, não há outro caminho para o artista marcial, isto é, viver a insegurança de forma aberta e honesta, assim, a segurança estará presente. Igualmente, o treinamento sugere a superação do medo, mas, assumi-lo é, talvez, a primeira tarefa de quem lida com a luta, em quaisquer dimensões. O medo de lutar significa a covardia de quem pretende ganhar sempre. No entanto, no contexto de luta, perder é preciso, da mesma forma que ganhar é apenas uma meta, uma possibilidade. Ganhar e perder, segurança e insegurança, portanto, são facetas de uma mesma realidade que nomeio: mundo da luta. A luta expressa o que as pessoas são, de modo que “interpretar” as condições de um lutador significa considerar o seu contexto. No Brasil, país em que o investimento em esporte no geral é pequeno e no campo das lutas, esportes de combate, inexistente, o contexto dos lutadores depende, essencialmente, do que cada um é, de onde vem, que estrutura familiar recebeu, dado que esperar que por por meio de políticas públicas se construa um lutador ou times de lutadores é esperar para o que não ocorreu e não se vislumbra hipótese de ocorrer.

            Pode-se afirmar que a luta tem potencial para ajudar a transformar as pessoas, uma vez que o que está em jogo é o ultrapassar de seu limite. Tanto no treinamento quanto em situações concretas de luta, o risco está dado e as perdas são inerentes, logo, alguma chance de transformação existe. O contexto das lutas não determina seu êxito, sempre e em todos os casos, de modo que pode-se afirmar que perder é ganhar. Se no caso de uma luta alguém permanece lutador após uma derrota, pode-se afirmar que houve ganho. O contrário é verdadeiro, isto é, se alguém se sente suficientemente vitorioso após uma batalha, talvez possa se acomodar e, se perder é ganhar, ganhar pode ser, paradoxalmente, a potência de derrota. Esta questão é sintomática e discutimos muitos exemplos concretos de atletas do Mestre Nereu Graballos que tinham “perdido” em certas circunstância e que aquela derrota[2], considerada a partir de intervenção firme dele gerou um grande vencedor.

            Estas considerações propedêuticas parecem suficientes para afirmar que a concepção de luta do Mestre Nereu Graballos ultrapassava a dimensão esportiva/competitiva, aliás, foi justamente este ponto que me convenceu a trabalhar tanto tempo com ele, dada a preocupação e a compreensão da arte marcial também como forma de vida, mais do que forma de competição.

            Mestre Nereu indicou dois pontos fundamentais para o desenvolvimento de um lutador: (i) a preparação e (ii) a estratégia. Antes disso, afirmou haver dois tipos de luta, quais sejam, (i) as inevitáveis e (ii) as objetivadas. No primeiro caso, das lutas inevitáveis, o lutador não tem opção a não ser lutar ou seja, ou há luta ou há morte. É o caso, por exemplo, de um paciente terminal que precisa lutar para sobreviver. A luta objetivada, por outro lado, diz respeito à demanda criada pelo lutador. Há o desejo e o objetivo claro daquele que vai lutar e, por isto, a partir desta clareza assumida, faz-se necessário tanto a preparação com o desenvolvimento de estratégias para que se tenha êxito no propósito.

            Neste contexto, antes de tratar destes aspectos, destaco sua marcante fala para o lutador que deve “perder em pé mas não ganhar ajoelhado”. Este pano de fundo demonstra a base principiológica do Mestre Nereu Graballos, no sentido de que não basta ao lutador adquirir preparação ou estratégia sem que ele tenha princípios muito definidos, claros e nobres, quais sejam: (i) a fidelidade, (ii)  a responsabilidade, (iii) a amizade, (iv) a fortaleza e (v) a temperança. Estes são os pontos que fazem um campeão, na perspectiva do Mestre Graballos e, mais do que isto, “o adversário é o mais importante para o atleta”, dizia o Mestre.

            Se faço uma analogia com a ideia de luta no contexto filosófico e assumo a vontade de potência (Der Wille zur Macht) de Friedrich Nietzsche (1844-1900) como pressuposto para tratar deste conceito, de fato, a resistência é o que motiva a força e só há resistência na luta dos contrários. Se há o dia é porque a noite oferece o seu sentido, se há a doença, é a saúde a sua razão. Logo, é a resistência que indica o sentido do outro, neste caso, do adversário e sem a resistência não há força. Sem o adversário não há luta.

            Portanto, minhas inquietações parecem estar circunscritas no contexto de resistência e de um adversário que está para além de meu controle, de minha vontade. Se algo deve ser retomado em se tratando de luta na perspectiva do Mestre Nereu Graballos, por certo, os princípios elencados: (i) a fidelidade, (ii) a responsabilidade, (iii) a amizade, (iv) a fortaleza e (v) a temperança não podem ser ignorados.

            Fidelidade de propósito e com relação ao treinamento e à vida devem prevalecer para além da fidelidade com um técnico, que é consequência desta relação de conhecimento de si. Responsabilidade que indica o compromisso com o projeto que se estabeleceu, considerando que sem responsabilidade o compromisso está comprometido e, portanto, a fidelidade também. A amizade cultivada em primeiro lugar com a própria consciência e, como consequência, aos grupos envolvidos para o desenvolvimento do projeto. A fortaleza no sentido de desenvolvimento da confiança e convicção no que se pretende desenvolver e, por fim, a temperança no sentido de condição psicológica de esperar o momento certo para a ação. Um lutador precipitado é sempre um perdedor, embora perder signifique, neste caso, ganhar conhecimento para que não se mantenha precipitado.

            Logo, é preciso investir na clareza de propósito do que se busca para que a luta, em quaisquer circunstâncias, possa ser resultante de uma relação honesta de cada um consigo mesmo. Lutar é necessário, principalmente quando se deseja pensar por si e construir projetos de vida significativos. É por meio da luta que se reconhece o adversário, que pode ser o próprio sujeito, de modo que sua superação é necessária no contexto da luta, porquanto no contexto da vida. Mestre Nereu Graballos tinha muitos adversários, justamente por ser um exímio lutador, isto é, aquele que não abria mão da vida vivida, razão de ter se imortalizado entre nós!

_________________________________________________________________

[1] Mestre Nereu Graballos presidiu a Confederação Brasileira de Kungfu/Wushu por muitos anos e tive a honra de participar de sua gestão na diretoria de wushu tradicional. Ele foi o responsável por projetar o wushu no cenário internacional e estou convencido de que sua compreensão de luta, que ultrapassava a dimensão esportiva/competitiva, e atravessava a vida das pessoas, foi a responsável por tamanho êxito do gongfu/wushu em sua época. Assumi o compromisso com ele em registrar e tornar pública a minha compreensão de seu conceito de luta e o faço em outubro de 2016, momento em que vivo a constante luta em retornar ou não ao guan/kwoon (ambiente de prática de arte marcial chinesa), depois de ter sido submetido a uma cirurgia de artrose de quadril, tendo recebido uma prótese (Ressurfacing). Portanto, trata-se de uma homenagem a um grande mestre que me ajudava a pensar os desafios da luta do cotidiano. Ao Mestre Nereu Graballos, os meus agradecimentos de sempre!

[2] Refiro-me especificamente a uma luta em que o aluno do Prof. Nelsinho, Facada, “perdeu” em um evento internacional, na cidade de Campinas e eu estava com o Mestre Nereu quando conversou com este aluno, após a luta, e, desde então, eu sabia que aquela intervenção poderia significar o início de uma nova vida. Pouco tempo depois este aluno se tornou um dos maiores nomes que o Sanshou/Sanda (luta esportiva do wushu) já conheceu, ao projetar a arte marcial chinesa, inclusive, no mundo do MMA – Mixed Martial Arts, tendo se tornado atleta da equipe de preparação do renomado Anderson Silva, o maior campeão do UFC de todos os tempos.

Anúncios

Um pensamento sobre “INQUIETAÇÕES DE UM ARTISTA MARCIAL: O CONCEITO DE LUTA DO MESTRE NEREU GRABALLOS (IN MEMORIAM)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s