AS RAÍZES DO SHUAIJIAO: UMA EXPERIÊNCIA NA MONGÓLIA INTERIOR

Conversando com um grande amigo, e colega de trabalho na universidade, sobre a viagem que fiz à China em 2016, um dos assuntos foi uma parte particular dessa viagem, a experiência na Mongólia Interior. Contei para ele o que foi essa experiência do ponto de vista da arte marcial, e especificamente do Shuaijiao, e ele falou uma frase que me marcou muito nesse diálogo: “Você fez uma viagem antropológica, como se no Brasil, alguém que estuda a capoeira, fosse aos recantos escondidos da Bahia para conhecer melhor a prática da Capoeira. Você foi às raízes do Shuaijiao. Treinou e viveu o Shuaijiao de Raiz”.

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O que, de primeira vista, chamou atenção foi a possibilidade de viajar para o interior da China sem fazer um planejamento prévio. Mas foi assim que aconteceu. Quando cheguei ao aeroporto de Guarulhos para esperar meu voo para Beijing, com escala em Londres, mandei uma mensagem, por meio do Wechat (aplicativo muito utilizado na China), para o meu professor, Ma Jianguo (马建国), que estava saindo do Brasil e que chegaria em Beijing no sábado, dia 23 de julho por volta das 13:50. Ele me respondeu que estava muito feliz em me receber, mas que só estaria em Beijing na terça-feira, dia 26 de julho de 2016, pois estava na Mongólia Interior (内蒙古) trabalhando em um campeonato universitário nacional de Shuaijiao.

Logo em seguida me enviou uma mensagem perguntando se eu gostaria de ir à Mongólia Interior encontrar com ele. Meu coração disparou, e obvio, minha frequência cardíaca aumentou significativamente.

Eu pensei… “viajar para a Mongólia… Mongólia Interior… Ver o Shuaijiao em sua versão mais bruta, mais simples. É uma grande sorte. É uma oportunidade única”. Respondi imediatamente que gostaria de ir sim.

Ele respondeu imediatamente que organizaria tudo, para mim e para o meu amigo que viajava comigo, ele já sabia que o professor Mafra viajaria comigo. Comecei a minha correria para me preparar financeiramente para essa viagem fora do planejado. Perguntei ao Mafra se eel gostaria de ir à Mongólia Interior. Ele respondeu euforicamente que “sim”. Então respondi para meu professor que iríamos sim para a Mongólia Interior encontrar com ele. Daí a viagem ficou mais ansiosa que estava antes.

Chegando a Beijing, soubemos que iríamos para Mongólia Interior no dia seguinte de carro com um amigo do mestre Ma. Preparamo-nos, para a tão esperada viagem, e fomos jantar com um amigo que nos recebeu em Beijing no sábado a tarde.

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No dia seguinte, domingo dia 27 de julho de 2016, um carro chegou à frente do hotel Jintailong, onde estávamos hospedados, dirigido pelo amigo do Mestre Ma, chamado  Ma Er, um policial de Beijing que treinou Shuaijiao por muitos anos e é amigo de infância do Mestre Ma.

A viagem para XilinGole (锡林浩特市), uma das principais cidades da Mongólia Interior, durou cerca de sete horas e meia, viajando de carro em estradas muito bem pavimentadas e sinalizadas. Chegamos ao Hotel do evento por volta das 16:00. Instalamo-nos no quarto do hotel e fomos apresentados ao grupo de organizadores do campeonato durante o jantar de boas vindas.

No dia seguinte fomos para o local do evento e participamos do curso de arbitragem de Shuaijiao para preparação dos árbitros que iriam trabalhar no evento. Todos eram graduandos e professores de educação física. No final do dia fomos jantar em um acampamento Mongol com vários professores e mestres de Shuaijiao, em uma barraca tradicional Mongol, que estavam trabalhando no evento ou que tinham atletas competindo. Nesse momento conhecemos mestres famosos como o Mestre Tung e o Mestre Wang. Mestre Tung, além de ser um cantor habilidoso, também é escritor de livro de sobre o Shuaijiao.

Foram cinco dias de muito aprendizado. Participar dos bastidores de um campeonato universitário nacional de Shuaijiao, da organização, da preparação dos árbitros com oficinas de arbitragem, e conhecer vários atletas, técnicos e professores da várias regiões da China, foi uma experiência indescritível, enriquecedora. Sem contar com os treinos diários que participamos sob a orientação do Mestre Ma Jianguo e do professor Qinxin (秦鑫).

Quando o campeonato começou, retornamos a Beijing. Mestre Ma tinha realizado sua tarefa de organizar e começar o campeonato, orientando árbitros, atletas e técnicos para que a realização dos trabalhos seguisse na direção de um evento organizado, respeitoso e cordato. Observando seu trabalho e sua liderança, percebi a semelhança com outro mestre que conheci e convivi durante muitos anos, o Mestre Nereu Graballos.

Ao final dessa experiência, permaneceu uma sensação de plenitude de aprendizado e de um aumento do conhecimento sobre o Shuaijiao. As estepes Mongóis influenciaram aspectos subjetivos da compreensão do Shuaijiao. Considerando a influencia da cultura Mongol no Shuaijiao chinês durante a dinastia Yuan (1271-1368) e a Qin (1644-1911), viajar à Mongólia Interior se constitui como uma jornada às raízes do Shuaijiao. E depois de uma viagem dessa, ninguém retorna da mesma forma.

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