FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE SHUAIJIAO NO BRASIL: A PRESSA COMO PRERROGATIVA

Quando fui convidado pelo Mestre Nereu Graballos em 2004 a conduzir a organização do Shuaijiao no Brasil através da Confederação Brasileira de Kungfu Wushu (CBKW), criando um departamento técnico e divulgando a modalidade, me vi frente a um grande desafio, formar professores que pudessem conduzir o trabalho de forma profissional em suas regiões. Esse tipo de profissional que se pretende formar é um grande desafio, pois a sua formação precisa de tempo para o amadurecimento dos sujeitos envolvidos e um bom currículo, que permita a adequada formação. Tempo e currículo, essa é a questão central dessa formação.

Obviamente que questões éticas são inerentes ao processo de formação profissional, tema que abordarei mais tarde, porém, tempo e currículo são o eixo central do trabalho que me envolvi e destaco com inicial importante. Assim, outra questão que se colocava no cenário da formação de professores de Shuaijiao no Brasil foi o tempo que os interessados estavam dispostos a investir em sua própria formação. A pressa foi um dos elementos que se apresentou como significativo. Os interessados na formação queriam um curso de formação que fosse rápido.

Pensando em qualquer formação profissional teremos em média de três a quatro anos. No campo das artes marciais o tempo médio é de cinco a seis anos, variando um pouco para mais em algumas modalidades. Aprofundando esse tema do tempo de formação de professores de artes marciais e os conteúdos necessários publiquei em 2009 um artigo específico sobre essa questão, clique aqui para ler o artigo na integra. No caso do Wushu (kungfu), dependendo da escola ou do estilo, varia de cinco a dez anos. Mas, a partir das minhas percepções da maioria dos relatos dos interessados na modalidade, o que as estavam dispostos a investir no Shuaijiao era muito menos que isso. Quando pensei no tempo e no currículo para dar conta dessa formação, considerei importente essa perspectiva, equilibrando a necessidade de formação de professores para a difusão da modalidade e do tempo mínimo necessário para que isso fosse feito de forma adequada.

Assim, o curso proposto em 2005 foi composto por 6 módulos e um total de 19 exercícios de aquecimento, 14 técnicas de Qinna, 28 formas e 48 técnicas de projeções. Cada módulo durava dois dias, com 12 horas de aula, o que somavam 72 horas/aula. Para finalizar o curso era realizado um exame final, teórico/prático, que determinava os que alcançaram um nível mínimo para se graduar professor 9° Deng. Com esse modelo, foram realizados dois cursos, um em São Paulo e outro em Minas Gerais. Em São Paulo foram 9 professores formados em 2006 e no estado de Minas Gerais foram 8 professores em 2007. Desses professores formados apenas alguns ainda atuam ensinando o Shuaijiao, o que considero um desperdício de energia.

Como todo processo de ensino e de formação deve ser revisto, avaliado e reorganizado, em 2007 o curso ganhou novo formato, principalmente com as experiências obtidas nos treinamentos realizados em Beijing, China. Conteúdos, métodos de ensino e organização das graduações ganharam novos contornos. Assim, o curso ganhou uma organização em 9 módulos, aumentando a carga horária e a quantidade das técnicas a serem aprendidas. A federação do Ceará apostou nesse modelo e iniciou em 2009 um curso de formação de seus filiados. Em 2011, no primeiro semestre, 15 professores foram formados a partir desse novo modelo no Ceará.

Alguns cursos tiveram início em diferentes estados, como Paraná, Rio Grande do Sul, Piauí e Acre. Entretanto, os cursos do Paraná e do Rio Grande do Sul não tiveram continuidade. Os do Acre e do Piauí ainda estão em andamento, pois a logística para a sua realização é de grande complexidade devido às distâncias entre as capitais desses estados e o Rio de Janeiro.

Em 2011, durante a assembleia ordinária da CBKW, deixei o departamento técnico de Shuaijiao da entidade, apresentando as razões para essa atitude. Desde 2009 o Mestre Nereu Graballos já não estava a frente da CBKW e os rumos dos trabalhos da Confederação se desenvolveram em outras direções (os motivos do afastamento do Mestre Nereu é uma outra história que contarei em outra ocasião) . Essa nova ordem na CBKW promoveu diversas mudanças, principalmente política. A CBKW passou a ser uma entidade com cunho político, nos moldes que estamos acostumados a ver no cenário político brasileiro.

Desse modo, essa nova forma de administrar o esporte atingiu também o Departamento de Shuaijiao. Então, as diretrizes de desenvolvimento e organização que deram origem ao departamento, sofria pressão para modificação no sentido de flexibilizar os critérios de formação de professores, de participação em eventos oficiais e de reconhecimento de professores que pretensamente se diziam ‘Professores’, excluindo-se aí a necessidade de comprovação de sua formação. Essa ‘flexibilização’ comprometia sobremaneira a qualidade da formação proposta pelo departamento e a organização da modalidade no Brasil.

A pressão para a flexibilização era grande, feita insistentemente pelo presidente da CBKW e seu diretor técnico geral. Sempre que havia uma reunião, um treino da seleção ou durante um campeonato, eles me chamavam para uma conversa sobre a necessidade de ‘Flexibilização’. Percebendo que isso não teria fim, e que a ética da CBKW tinha mudado drasticamente, resolvi sair. Não podia me acumpliciar com tamanhos desmandos e irresponsabilidades com a qualidade do trabalho feito até então. Mesmo que minhas declarações na Assembleia Ordinária de 2011, realizada em Brasília, a época do campeonato brasileiro, não estejam relatadas em ATA (propositalmente), externei para todos os presentes naquele momento a minha insatisfação com as pretensões da nova presidência (interina na época), e que não podia permanecer no cargo por uma questão de princípios. Qualidade, organização e profissionalismo eram o que me movia, e não a permissividade proposta. Muito se falou sobre a minha saída, até mesmo que eu abandonei o Shuaijiao. É lógico que especulações e boatos surgem quando os reais fatos não são contatos, por não serem coadunados com as ideias da nova diretoria. E foi isso que aconteceu, mas não abandonei nada, continuo o trabalho que acredito até hoje, continuo formando professores, treinando atletas e mantendo vínculos de trabalho com diferentes grupos e federações, além de ter estreitado as relações com um importante grupo de Shuaijiao na China, liderado pelo Mestre Li Baoru e Ma Jianguo. Assim, estou me dedicando intensamente a ensinar, divulgar e difundir a escola de Shuaijiao de Beijing.

Mas, voltando ao foco do texto, depois de minha saída da CBKW, um novo diretor assumiu o posto, muito mais alinhado com o pensamento da nova administração do wushu no Brasil. Assim, algumas ações foram feitas de imediato, como exemplo a ‘flexibilização’ para a participação em eventos oficiais, mesmo que os técnicos dos atletas não tivessem nenhum documento ou reconhecimento como professores de shuaijiao. Outra ação foi a realização do Workshop de Adequação e Reconhecimento de Professores de Shuaijiao, com 15 horas de duração. Esse workshop visa graduar novos instrutores e professores em apenas um fim de semana, em uma clara ‘flexibilização’ do trabalho da entidade organizadora do wushu no Brasil.

Esse workshop foi realizado em São Paulo, Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro em 2015, graduando instrutores e professores de diferentes locais, como de Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo e Rio Grande do Sul. Muitos deles nuca haviam praticado shuaijiao com um professor reconhecido, e mesmo alguns nunca tiveram contato com a modalidade propriamente dita. Outros ainda foram aqueles que começaram o curso original da CBKW e não terminaram.

O que chama atenção, visto o nível de experiência dos participantes, é a carga horária de formação e o conteúdo apresentado como requisito para essa formação. Digo formação por saber que muitos dos participantes não tinham nenhuma experiência prática com a modalidade. Mas para dar conta dessa questão, o nome ‘Formação’ foi substituído pelo nome ‘Workshop de adequação e reconhecimento’. Adequação no sentido de diminuir os conteúdos necessários para a formação adequada de professores (vejam o currículo atual da CBKW e compare com o número de técnicas apresentadas na primeira versão da mesma entidade sob administração do Mestre Nereu), e reconhecimento daqueles que se diziam professores sem nenhuma comprovação disso. Peço desculpas aos que realmente possuem uma formação séria em outras escolas originais como a do Mestre Li Wingkay, este, sabidamente, formou diversos professores no Brasil desde a década de 1990. Assim como o professor Roberto Baptista o fez também.

Esse processo de “adequação e reconhecimento” tem a pretensão de continuar em outros estados, dando continuidade ao processo irresponsável de formação de novos professores de uma modalidade jovem no Brasil, extremamente prática e complexa, que requer responsabilidade para que cresça de forma adequada e responsável. Esses eventos de “formação” já estão programados para o ano de 2016.

Esse modelo de fast food de graduação está sendo copiado por outras entidades no Brasil, o que demonstra uma concorrência pensando em mercado, sem levar em conta a questão mais importante no processo de formação de instrutores e professores que irão atuar no ensino do shuaijiao no Brasil, A QUALIDADE. Com os conteúdos propostos e os tempos que se investe para essas formações, QUALIDADE é o que menos se prioriza.

Se você deseja praticar essa modalidade ou se formar professor nela, busque professores com grande experiência e que passaram por processos de formação sério e profissional. Boa reflexão sobre esse cenário assustador, e boa busca caso queira seriedade e profissionalismo.

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Um pensamento sobre “FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE SHUAIJIAO NO BRASIL: A PRESSA COMO PRERROGATIVA

  1. Prezado Prof. Marcelo Antunes,

    Obrigado por seu texto que evidencia um problema que assola o ensino das artes marciais em sentido amplo e do wushu de modo particular. De certo modo, guardadas as proporções, este problema da “pressa” da formação revela um problema típico da sociedade moderna. Um pensador italiano escreveu um livro muito instigante, intitulado Homo Videns (Sartori, 1998). A tese dele é a de que o homem está perdendo sua capacidade de pensamento, de reflexão, de abstração por conta da tecnologia, da geração “imagem”. No caso das artes marciais, este fenômeno da televisão e do acesso “fácil” e direto à informação tem produzido a falsa ideia de que ao “ver” um currículo, por exemplo, com imagens, significa a compreensão daquele conteúdo. Talvez, esta flexibilização relatada em seu texto venha para dar uma resposta a pessoas que, além de não compreenderem o que significa wushu (isto tem sido comum no meio), não pretendem conhecer seu sentido. O esforço, a dedicação, pressupostos de quem deseja avançar neste campo, independente da modalidade, são substituídos por “discursos pomposos” de êxito em competições ou mesmo da falácia de que com esta “formação” o sujeito terá grandes ganhos em um mercado promissor.

    Felizmente, sua formação condiz com o termo que realmente forma, isto é “prepara para”, seja do ponto de vista técnico, mas, sobretudo, do ponto de vista da concepção de arte marcial que mesmo na modernidade não deixou de requerer esforço, treinamento, “gongfu”. Além de sua formação inicial você continua os estudos de Shuaijiao em Beijing e este pressuposto de estudar sempre está presente nas exigências de seus cursos. Assim, quem procura aprender Shuaijiao contigo terá que lidar com o que parece ser mais caro no wushu na atualidade, isto é, terá que viver o wushu no sentido de aprimoramento, no sentido de tempo de habilidade, no sentido do termo “gongfu”. Isto não é pouco em um mundo de fantasia e de ilusões, em que entidades que deveriam ter este aspecto como premissa abrem mão do gongfu justamente para se adequar aos desejos dos “clientes”. Se de um lado se pode lamentar por este fenômeno da pressa, honestamente, ele apenas enfatiza problemas sociais que temos observado em outros segmentos, então, felizmente temos opções ainda, seja no caso do Shuaijiao, com o trabalho primoroso que você e seus alunos têm feito, seja, no caso de outros segmentos, mas, é preciso muita capacidade de leitura dos interlocutores para descortinar a fumaça que esconde a realidade. O interessante é que há realidade mesmo em meio a tantas falácias e quimeras, mas, venhamos e convenhamos, muitos só terão acesso mesmo à falsidade, à ilusão.

    Comecei minha formação em Shuaijiao com você e o falecido Mestre Nereu Graballos, em 2009, e depois de muitas aulas e encontros para treinamento em Campinas sob sua supervisão, além de horas de treinamento individual e com alguns de meus alunos, tive a honra de ter sido contemplado com o 9.o Grau (Professor Assistente), em 2014, cinco anos após o início, em exame que avaliou formas, projeções e luta.

    Foram cinco anos para esta preparação que está em andamento, dado que depois do exame, foram realizados diversos treinos e o aprendizado continua. Este exemplo atual evidencia que nem tudo está perdido no mundo do wushu, especialmente do ensino de Shuaijiao e só tenho a lhe agradecer por manter vivos princípios invioláveis de quem vive a arte marcial de forma rigorosa e genuína, seguindo o que ensinava o falecido Mestre Nereu Graballos!

    Saudações,
    Samuel Mendonça

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